sábado, 5 de maio de 2012

AGÊNCIA DA VOLKS TENTA EXPLICAR ANÚNCIO MACHISTA


Acabei de receber um email da assessoria de imprensa da Almap BBDO pedindo desculpas “por qualquer interpretação preconceituosa que o anúncio criado para a Volkswagen possa ter lhe causado.” E tentando explicar o “mal entendido”. Segundo a agência, o anúncio da mulher enfiando a faca numa torradeira faz parte de uma campanha com outras cinco peças publicitárias que tratam de segurança no trânsito. As peças mostram pessoas distraídas, três homens e três mulheres. A próxima a ser veiculada (no mesmo jornal de Jundiaí, no próximo domingo) é esta ao lado, com os dizerem “Cuidado: ele também dirige”.
Nos anúncios, em letra bem pequena embaixo de tudo, está escrito “As cenas mostradas são apenas ilustrativas e foram realizadas por profissionais, não tente reproduzi-las”.

E aí, essa explicação alivia a barra da agência (que, como lembraram leitoras, é responsável também por propaganda considerada racista, como a do azeite Gallo do ano passado; por outro lado, a mesma agência fez umahomenagem bem razoávelao Dia Internacional da Mulher no ano passado)? Limpa a barra da Volks?
Contexto é tudo, na minha opinião. O anúncio sozinho da mulher com a faca na torradeira, sem o resto da campanha, continua sendo tremendamente machista. E o que me incomoda é o estilo retrô (vintage) do anúncio, tão parecido com peças dos anos 50/60. Além do mais, dizer que temos que ter cuidado com homens tontos porque eles dirigem é bem diferente de falar o mesmo das mulheres. Porque –- e olha o contexto aí de novo -– vivemos num mundo em que, apesar de todas as estatísticas apontarem o contrário, mulheres são consideradas péssimas motoristas. Então acontece uma falsa simetria quando se diz que fazer este anúncio com um homem e com uma mulher dá na mesma. Porque não é a mesma coisa.

Quando um homem faz uma barberagem no trânsito, ninguém grita “Só podia ser homem!”. Ele é um barbeiro individual que está longe de representar todo o gênero masculino. Mas uma mulher que dirige mal é vista como representante de todas as mulheres. Logo, não adianta que a mulher seja uma exímia motorista, cuidadosa, atenta, respeitosa com as leis. É só uma mulher tocar num volante que boa parte da sociedade achará que ela não deveria estar no volante... simplesmente por ser mulher. Se isso não é preconceito e discriminação, eu não sei o que é (lógico que isso não vale só pra dirigir. Esse é o princípio básico do preconceito. Pense em quantas pessoas gritariam "Só podia ser preto!" se o motorista barbeiro fosse negro. Ninguém diria "Só podia ser branco!" Mas o preconceito contra mulher que dirige parece pesar mais pra gente que outros "Só podia ser mulher!", porque interfere num direito caro a nós, que é o da liberdade de ir e vir, de ocupar o espaço público. E também porque carro, velocidade e potência estão tão associadas a um conceito -- arcaico -- de masculinidade).

Continuo achando péssimo o anúncio da Volks com a mulher e a torradeira. E fico imaginando como serão os outros dois anúncios com mulheres. Serão com elas em ambientes domésticos também, como uma cozinha?
Quero muito ouvir a opinião de vocês.

fonte: http://escrevalolaescreva.blogspot.com.br/2012/05/agencia-da-volks-tenta-explicar-anuncio.html

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